A violência que começa silenciosa, muitas vezes dentro de casa, segue deixando marcas profundas na sociedade baiana. Dados divulgados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), em parceria com a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), revelam que 102 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado em 2025.
Embora tenha sido registrada uma redução de 7,3% em relação ao ano anterior, quando 110 casos foram contabilizados, o cenário ainda exige atenção. Isso porque, proporcionalmente, os números seguem acima do início da série histórica. Em 2017, a taxa era de uma vítima a cada 100 mil mulheres. Já em 2025, esse índice subiu para 1,3.
Ao longo de nove anos, entre 2017 e 2025, foram contabilizados 891 feminicídios na Bahia. Em outras palavras, uma mulher perdeu a vida a cada quatro dias por conta da violência de gênero. Um dado que, por si só, dispensa qualquer tipo de relativização.
Outro ponto que chama atenção está no contexto em que esses crimes acontecem. Em 85% dos casos, o feminicídio foi registrado dentro da própria residência da vítima. Ou seja, o espaço que deveria representar segurança acaba sendo, para muitas mulheres, o cenário final de uma violência que já vinha sendo construída.
Além disso, em nove de cada dez ocorrências, o autor do crime foi o parceiro íntimo, incluindo companheiros, ex-companheiros, namorados ou ex-namorados. A presença de armas brancas também aparece como um fator recorrente, utilizada em mais de um terço dos casos.
O perfil das vítimas segue um padrão que se repete ao longo dos anos. A maioria são mulheres negras, com idade entre 30 e 49 anos, e que estavam em algum tipo de relacionamento. Um recorte que expõe, além da violência de gênero, camadas sociais e estruturais que ampliam a vulnerabilidade.
Ainda em 2025, um dado reforça a gravidade da situação: a cada quatro mulheres mortas de forma violenta na Bahia, uma foi vítima de feminicídio.
Diante desse cenário, mais do que números, o que se evidencia são histórias interrompidas. Vidas que, muitas vezes, já davam sinais de alerta antes do desfecho trágico.
A leve redução registrada no último ano pode indicar avanços pontuais em políticas públicas e ações de enfrentamento. No entanto, os padrões que se mantêm ao longo do tempo mostram que o problema está longe de ser resolvido.
Falar sobre feminicídio é, sobretudo, reconhecer que a violência contra a mulher não começa no ato final. Ela se constrói no controle, no silêncio, no medo e na naturalização de comportamentos abusivos.





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